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Firmina #1 - Professor é ameaçado nas redes sociais por falar sobre diversidade

Firmina
Firmina #1 - Professor é ameaçado nas redes sociais por falar sobre diversidade
Por Nonada Jornalismo • Edição Nº3 • Ver na web
Oi, pessoal. Thaís por aqui. Esta é a primeira edição da Firmina, newsletter jornalística sobre liberdade artística, educacional e religiosa. Quero começar falando um pouco sobre quem faz a Firmina e por que ela existe - por isso, nossa introdução vai ser mais longa, é estreia né.
A newsletter nasceu de muitos meses de planejamento, conversas e mentorias dentro do Nonada, uma organização de jornalismo cultural que entende a cultura para além da produção artística. A gente cobre arte, mas também políticas culturais, comunidades tradicionais, patrimônio, censura e direitos humanos. 
E como apontam estudos como o do Artigo 19, a liberdade de expressão está ameaçada no Brasil. Desde 2019, monitoramos ataques a artistas no Observatório de Censura à Arte, iniciativa que já serviu de base para artigos acadêmicos e veículos como o Diário de Notícias (Portugal) e o jornal O Globo. Agora, chegou a hora de expandir um pouco essa atuação. Mesmo sabendo que não vamos dar conta de tudo, o que a gente espera é poder contribuir um pouco para quem se interessa pelo assunto e quer se manter atualizade. A informação é estratégica neste ano que já corre a passos largos. E foi por isso que lançamos o projeto mesmo sem financiamento pra ele.
A Firmina é nomeada a partir da escritora e professora Maria Firmina dos Reis. Nascida no Maranhão em 11 de março de 1822, ela se tornou a primeira romancista negra do país e rompeu barreiras ao apresentar uma obra abolicionista cujo legado ecoa até hoje. Estamos na semana do seu bicentenário, e a gente preparou uma matéria para celebrar sua história.
Obrigada de coração a todos, todas e todes os artistas, profissionais que trabalham com direitos humanos e entidades que ajudaram na construção desse projeto, em especial a Fundacion Gabo, a Énois e o Mobile.
Ah, a newsletter é totalmente gratuita, mas a gente aceita doações lá no Catarse.me/nonada!
Boa leitura e se cuidem,
Thaís Seganfredo
editora

Liberdade educacional
  • Em evento realizado pelo Ministério da Educação na terça-feira, (8), o ministro Milton Ribeiro deu declarações contrárias e errôneas sobre identidade de gênero na sala de aula. “Dentro da escola, a gente tem que fazer o caminho correto (…) não tem isso de ensinar ‘você nasceu homem, pode ser mulher'”, disse em coletiva de imprensa. Ele também afirmou que “respeitar é uma coisa, mas incentivar é outro passo” e que não iria permitir que “a educação brasileira vá por um caminho de tentar ensinar coisa errada para as crianças. Dentro da escola, a gente aprende o que é bom, o correto, o civismo, o patriotismo”. O ministro já responde a uma denúncia da Procuradoria Geral da República por homofobia devido a falas anteriores. Mais aqui.
  • Professores de Jaguariúna/SP realizaram, na última quinta-feira (3), um ato em protesto contra a perseguição e censura ao professor Mateus Oliveira dos Santos, que leciona em uma escola estadual do município. O professor vem sofrendo ameaças nas redes sociais desde 21 de fevereiro, quando a aula dele de Sociologia foi gravada e difundida na internet sem sua autorização. Nela, Mateus abordou assuntos como diversidade, identidade de gênero e orientação sexual. Flávio Bolsonaro (PL) e Carla Zambelli (PSL) repercutiram o vídeo nas redes sociais, além do jogador de vôlei Maurício, que ameaçou o educador no instagram: “Vamos atrás desse professor, ele não dará mais aula pra ninguém!“. O professor registrou Boletim de Ocorrência. A Ponte aprofunda essa história.
  • Um grupo de 80 entidades em defesa da educação lançou, no final de fevereiro, o “Manual de Defesa contra a censura nas escolas”. Com orientações jurídicas e estratégias pedagógicas, a publicação está disponível online neste link. “O Manual de Defesa Contra a Censura nas Escolas articula duas estratégias complementares: por um lado, fornece subsídios para que as comunidades escolares possam, em seu cotidiano, enfrentar as ameaças concretas ou anunciadas. Por outro, valoriza o debate público sobre essas situações como forma de enfrentamento de um conflito social gerado pela manipulação das ideias”, explica a apresentação do material. Além de embasamento jurídico respaldado por órgãos públicos sobre censura, o relatório traz também inúmeros estudos de caso. Entre as orientações para quem sofre algum tipo de ataque, estão ações como “identificar e mobilizar aliados na comunidade escolar, envolver o sindicato de sua categoria, dar publicidade ao problema e exigir um posicionamento da rede de ensino”.
Escola Anna Calvo Godoy, onde o professor Mateus leciona (Foto: Instagram/reprodução)
Escola Anna Calvo Godoy, onde o professor Mateus leciona (Foto: Instagram/reprodução)
Liberdade religiosa
  • O Instituto Nacional de Defesa das Religiões de Matrizes Africanas (Idafro), o Ilê Omolu Oxum e a Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro) estão trabalhando juntos na criação de uma capacitação para os profissionais da área jurídica. A ideia é que eles possam se instrumentalizar nas questões de defesa dos povos de terreiro. As entidades lançaram recentemente uma campanha online contra a intolerância aos povos de terreiro.
  • O Ilê Omolu e Oxum também iniciou uma pesquisa para ouvir os dirigentes de terreiros no país. O objetivo é mapear os locais, o grau de formalização e a presença dos terreiros em ambientes virtuais.
  • Em fevereiro, o Ministério Público da Bahia acionou a Justiça para determinar que funcionários da empresa Penha Papéis e Embalagens sejam proibidos de adentrar a área do Terreiro Ici Mimó Aganju Dide, em Cachoeira. Na ação, o promotor de Justiça afirma que a empresa vem, “de forma reiterada, ao longo dos últimos anos”, realizando invasões em áreas do terreiro, desmatamento, derrubada de cerca e destruição de objetos e sítios tidos como sagrados pela comunidade de santo e inerentes ao exercício das atividades do terreiro.
  • Também na Bahia, o terreiro Logun Edé, localizado no município de Eunápolis, sofreu ataques no dia 13 de fevereiro. O caso de intolerância religiosa partiu de um grupo de evangélicos, que parou em frente ao local e assediou os praticantes com mensagens emitidas no carro de som. A Polícia Militar foi acionada, mas não enviou viatura. O Correio 24 horas relatou o episódio.
Liberdade artística
  • Na quarta-feira (7), o MOBILE - Movimento Brasileiro Integrado pela Liberdade de Expressão Artística lembrou casos de mulheres artistas que sofreram censura desde 2018 no Brasil. Um episódio foi o da vocalista do grupo Teto Preto, Laura Diaz, que teve que cobrir seu corpo para evitar o cancelamento de uma apresentação em Brasília. No Observatório de Censura à Arte, nós registramos 21 casos de censura contra obras de arte com temática feminista, incluindo mulheres trans. Relembre alguns episódios:
Belo Horizonte/MG, 2018 -De autoria da artista Sylvia Triginelli, a mostra “Corparte: corpo e arte, parte e cor”, que retratava corpos nus de mulheres negras e gordas, foi censurada pela Escola de Belas Artes da universidade. O trabalho era parte da conclusão de uma disciplina da faculdade e foi interrompido pela superintendência da universidade logo após a montagem, com a alegação de que a nudez não deveria ser exposta em espaço público. 
Dois Irmãos/RS, 2018 - Organizada pela Pinacoteca da Universidade Feevale, a exposição ‘O Mundo em 10 anos’ teve obras atacadas nas redes sociais. Em especial, sofreram críticas telas com representações como uma transexual crucificada, mulheres nuas e referências políticas. Em nota, o vice-prefeito alegou que “o conteúdo não era adequado para um espaço público”. 
Matinhos/PR, 2020 - A Polícia Militar interrompeu um ensaio aberto do grupo Baque Mulher, além de apreender instrumentos e deter 3 mulheres. O Baque Mulher é um movimento nacional de maracatu liderado por mulheres negras. A censura ocorreu quando a PM recebeu reclamações de moradores sobre o grupo, que ensaiava à luz do dia na orla. Os policiais interromperam com violência o ensaio, apreendendo instrumentos sem qualquer mandado judicial e obrigando 3 artistas a entrarem na viatura. Um dos policiais chamou de vadia uma das coordenadoras que tentava conversar e pedir por seus direitos.“ 
Aspas da semana
Cristina Costa (Foto: Marcos Santos/Jornal da USP)
Cristina Costa (Foto: Marcos Santos/Jornal da USP)
“A universidade é o grande espaço de liberdade que existe nesse país. Eu acho que é o único, porque no caso das editoras, por exemplo, você leva um livro para ser publicado e ele passa primeiro pelos advogados para saber se há alguma coisa que possa ser passível de processo. Então, acho que a universidade pública é um milagre no Brasil. Uma instituição que não tem nem cem anos e que consegue produzir com liberdade, com dignidade, com isenção”. 
Nossa fala da semana é da professora da USP Maria Cristina Castilho Costa, idealizadora do Observatório de Comunicação Liberdade de Expressão e Censura (Obcom). Pioneira nos estudos sobre censura, ela concedeu uma entrevista para a revista Nonada no ano passado. Uma verdadeira aula de História e política. Leia a conversa na íntegra.
Curadoria
Toda semana a gente vai indicar aqui um conteúdo para você ler, ver ou ouvir - e quem sabe os três juntos. Na edição #1 do Firmina, queremos te perguntar. Você já ouviu o Benzina? Apresentado por Orlando Calheiros e Stephanie Borges, o podcast traz reflexões importantes e fora da caixa no campo da arte e da filosofia, inspirados pelo anarquismo, feminismo e afrofuturismo. A dupla tem um papo aprofundado, bem-humorado, e de quem gosta muito dos assuntos sobre os quais conversa. Orlando é antropólogo e Stephanie escritora e tradutora. Os dois se encontram numa relação muito próxima com a cultura de Terreiro e compartilham com o ouvinte vivências e reflexões do universo das religiões de matriz africana. Em cada episódio do Benzina, um Orixá é comentado para além das descrições mais simples que circulam na internet. Que tal começar pelo episódio sobre Exu, aquele que come primeiro, o senhor dos caminhos? 
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